“Fadiga Adrenal” – Desconstruindo um Mito!!!

“Fadiga Adrenal” – Desconstruindo um Mito!!!

As glândulas suprarrenais são pequenas glândulas que ficam sobre os rins e secretam hormônios, como o cortisol. A insuficiência adrenal é um distúrbio caracterizado pela baixa produção de cortisol. Pacientes com insuficiência adrenal não tratada se queixam de fadiga, perda de peso, desconforto abdominal, tontura e outros sintomas. A natureza vaga de seus sintomas pode levar a uma dificuldade no seu diagnóstico, pois estes sintomas podem se sobrepor a muitos outros distúrbios.

O termo “fadiga adrenal” tem sido usado por alguns médicos, profissionais de saúde e pela mídia em geral para descrever uma suposta condição causada pela exposição crônica a situações estressantes. De acordo com essa teoria, o estresse crônico pode potencialmente levar ao “uso excessivo” das glândulas supra-renais, resultando eventualmente em sua falha funcional. Uma pesquisa no Google pelo termo “fadiga adrenal” produziu quase 14 milhões de resultados, indicando o uso generalizado desse termo. Este termo tem sido usado em vários livros populares de saúde, sites de medicina alternativa e fóruns de pacientes. Suplementos variáveis, incluindo micronutrientes e ervas além de “suplementos adrenais” (frequentemente feitos de glândulas adrenais, pituitárias e gonadais de animais) estão disponíveis on-line para compra e pretendem curar a fadiga adrenal. Esses suplementos são caros, não têm benefícios comprovados e alguns demonstraram causar danos.

Além disso, e mais preocupante ainda, milhares de profissionais de saúde, alguns instruídos por Sociedades Médicas, como é o caso da “The American Academy of Anti-Aging Medicine”, estão solicitando testes dos níveis séricos de cortisol basal e ritmo salivar de cortisol e prescrevendo “tratamento” com corticosteroides baseado em resultados “alterados”, resultados estes que são inconsistentes e sem validação para esta finalidade. Como resultado, corticosteroides estão sendo prescritos para um grande número de pacientes.

Os argumentos para o uso de corticosteroide como tratamento para a suposta “fadiga adrenal” incluem: [1] a melhora imediata e significativa observada em pacientes que recebem corticosteroide prescrito e [2] a longa e extensa sintomatologia clínica dessa suposta doença, que mostra uma depleção lenta antes do hipocortisolismo clínico e grave. Além disso, outros afirmam que os endocrinologistas usam critérios de diagnóstico muito rigorosos antes de prescrever corticosteroides e, portanto, muitos pacientes não estariam recebendo tratamento adequado.

No entanto, existem contra-argumentos lógicos ao uso rotineiro de corticosteroide nesses pacientes. Primeiro, os corticosteroides promovem uma sensação de bem-estar (geralmente temporária), independentemente da condição do paciente. Segundo, mesmo em doses baixas e fisiológicas, os corticosteroides aumentam o risco de vários distúrbios, como distúrbios psiquiátricos, osteoporose, miopatia, glaucoma, distúrbios metabólicos, distúrbios do sono e doenças cardiovasculares.

Uma excelente revisão sistemática publicada em 2016 por Flavio A. Cadegiani and Claudio E. Kater foi categórica em provar que não há comprovação de que “fadiga adrenal” seja uma condição médica real. Portanto, a “fadiga adrenal” ainda é um mito.

Embora a “fadiga adrenal” não seja um distúrbio real, os sintomas e preocupações dos pacientes podem ser debilitantes e precisam de avaliação e gerenciamento adequados. Vários distúrbios podem apresentar sintomas semelhantes, que podem ser mal interpretados como “fadiga adrenal”.

A avaliação inicial deve incluir um histórico cuidadoso da origem dos sintomas, progressão, histórico de distúrbios crônicos simultâneos e medicamentos. Deve-se prestar muita atenção na avaliação de condições psiquiátricas que podem se apresentar como fadiga.

Algumas condições mais comuns que podem potencialmente ser rotuladas como “fadiga adrenal” são: Insuficiência Adrenal, Síndrome de Fadiga Crônica, Síndrome da Apneia do Sono e Depressão.

Em conclusão, nem toda fadiga é de origem adrenal. É crucial que, se você tiver alguns sintomas sugestivos de insuficiência adrenal, visite um endocrinologista certificado para poder avaliar você e determinar qual é o diagnóstico e o tratamento corretos, se necessário.

Referências: (1) Flavio A. Cadegiani and Claudio E. Kater. Adrenal fatigue does not exist: a systematic Review Cadegiani and Kater BMC Endocrine Disorders (2016) 16:48. (2) Adaptações do Texto publicado por Ricardo Correa, MD, et al para a revista EmPower da American Association of Clinical Endocrinologists.

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