Obesidade e COVID-19

Obesidade e COVID-19

A pandemia da Covid-19 está se espalhando rapidamente em todo o mundo, principalmente na Europa e América do Norte, onde a obesidade é altamente prevalente.

A obesidade é reconhecida como um fator de risco para infecção grave, conforme ilustrado em pacientes com obesidade que apresentaram uma forma mais grave e de longa duração durante a epidemia de influenza A H1N1.

Além das alterações anatômicas e fisiológicas que afetam a face, pescoço, faringe, parede torácia e pulmões de pacientes com obesidade o excesso de gordura abdominal ou visceral tem papel fundamental na resposta destes pacientes na COVID19 por basicamente 2 mecanismos: 1 – aumento da pressão abdominal, fato desmonstrado por estudos de função pulmonar que evidenciaram um padrão restritivo e volumes pulmonares reduzidos em indivíduos obesos e 2 – os níveis elevados de interleucina 6 (IL-6) que estão associados à obesidade e/ou síndrome metabólica bem como a secreção anormal de adipocinas e citocinas como TNF-a e interferon que caracterizam um quadro inflamatório crônico podendo induzir a uma diminuição na resposta imune e aumentar a inflamação no parênquima pulmonar e nos brônquios.

A relação entre obesidade e síndrome respiratória aguda grave pelo coronavírus-2 (SARS-CoV-2) não tem sido completamente documentada devido à falta de trabalhos sobre o impacto da COVID-19 em pessoas com obesidade. No entanto, em recente publicação de uma série de casos em Hospitais da Espanha, foi documentado que jovens com obesidade severa evoluíram com uma forma mais grave da doença pulmonar, com insuficiência respiratória e morte. Em hospitais franceses a associação de obesidade severa com necessidade de atendimento em unidade de tratamento intensivo e ventilação mecânica invasiva foi o dobro para pacientes obesos quando comparados a pacientes magros.

Em um estudo retrospectivo publicado no periódico Obesity, jornal oficial da The Obesity Society por Arthur Simonnet e colaboradores com a análise de 124 pacientes admitidos em Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) por síndrome respiratória aguda grave relacionada ao Coronavirus (SARS-CoV-2) e necessitaram de ventilação mecânica, foi demonstrado uma alta frequência de obesidade entre estes pacientes e a gravidade da doença aumentou conforme o aumento no peso.

Analisando melhor este estudo observamos que entre esses indivíduos, 47,6% tinham um índice de massa corpórea, o IMC,  igual ou maior do que 30 e menor do que 34,9. Outros 28,2% eram casos de obesidade severa, isto é, com um IMC maior do que 35.  Segundo os autores, 85 pacientes do total acabaram evoluindo mal e necessitaram de ventilação mecânica. Quando a equipe resolveu examinar apenas esse grupo em estado mais grave da covid-19, notou que simplesmente 85% deles pertenciam ao grupo com IMC acima de 35. A conclusão, portanto, é que a severidade da infecção pelo novo coronavírus tende a ser maior quanto mais elevado é o grau de obesidade e que ela deve ser considerada um importantíssimo fator de risco para a síndrome respiratória aguda.

Outro estudo publicado por Caussy C, et al dia 21 de abril no mesmo periódico avaliou a  experiência do Hospital Universitário de Lyon, na França, de 291 pacientes consecutivos admitidos na UTI para SARS-CoV-2 entre 27 de fevereiro e 8 de abril de 2020. Nessa população, a prevalência de obesidade (IMC  maior de 35) foi menor: 11,3% que em Lille 28,2%, bem como a exigência de ventilação mecânica invasiva 58,4% em comparação a 68,6% em Lille. Essas diferenças podem ser devidas a uma menor prevalência de obesidade na região de Lyon (Rhône) de 12,3% e a um maior uso de oxigenoterapia de alto fluxo por meio de cânula nasal como o optiflowTM na UTI do Hospital Universitário de Lyon (56,0%). De fato, essa técnica pode oferecer uma alternativa a outras técnicas não invasivas que provavelmente não eram preferidas no contexto do SARSCov-2 devido ao maior risco de aerossolização. Portanto, essas limitações precisam ser consideradas para a interpretação dos achados do centro de Lille. Apesar disto os dados confirmaram a observação da maior necessidade de ventilação mecânica invasiva em pacientes com obesidade severa comparada a pacientes magros (81,8% versus 41,9%).

FONTES

01 – COVID-19 and endocrine diseases. A statement from the European Society of Endocrinology. M. Puig-Domingo, et al. Endocrine. 2020 Apr 11.

02 – High prevalence of obesity in severe acute respiratory syndrome coronavirus-2 (SARS-CoV-2) requiring invasive mechanical ventilation. Simonnet A, et. Al.; Lille Intensive Care COVID-19 and Obesity study group. Obesity (Silver Spring). 2020 Apr 9.

03 – The relationship between obstructive sleep apnea syndrome and obesity: A new perspective on the pathogenesis in terms of organ crosstalk. Kuvat N, et al. Clin Respir J. 2020 Feb 29.

04 – Obesity is associated with severe forms of COVID-19. Caussy C, et al. Obesity (Silver Spring). 2020 Apr 21.

05 – www.abeso.org.br.

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